O Vale Sagrado dos Turistas

Caminhar pelo Peru tendo por objetivo chegar a Machu Picchu deixou de ser uma atitude de descoberta para ser mais um atrativo que empolga a indústria do turismo local. Chegar a Machu Picchu é hoje um empreendimento caro, fácil de ser alcançado pelos turistas europeus e norte-americanos, já que suas moedas possibilitam tornar a dura travessia dos incas numa empreitada divertida e sem grandes mistérios. Já para os brasileiros e sul americanos em geral, o mistério maior é conseguir fazer turismo com os parcos recursos que dispomos para aventuras dispendiosas como essa.
Em Aguas Calientes, um pequeno povoado próximo a Machu Picchu, com o comércio local basicamente voltado para o turismo, há uma desproporção entre os preços dos hotéis que variam entre algumas dezenas de dólares e trinta soles. Soles é a moeda oficial do Peru e atualmente equivale ao nosso real. A mesma desproporção pode ser sentida no preço da passagem de trem de Cuzco para Aguas Calientes - que para o turista custa dez dólares; no preço da passagem de ônibus de Aguas Calientes para as ruínas - que para o turista também custa dez dólares; e ainda a entrada de 20 dólares, que é cobrada aos turistas para o acesso ao Templo Sagrado de Machu Picchu.
Muitas latas de cerveja, sacos de comida desidratada e alguns outros tipos de fast-food inundam as mochilas recheadas dos turistas, que são muitas vezes transferidas para as costas dos carregadores locais. As agências de turismo, equipadas para tornar a travessia do Vale Sagrado dos Incas em um acontecimento inesquecível para a vida pacata dos seus clientes, colocam um sem número de oportunidades para atrair a todos, com atividades para diferentes tipos e gostos, indo desde a simples caminhada, que pode ser de dois a quatro dias, até o turismo exotérico, que inclui cerimônias xamânicas para grupos em pleno Andes. É claro que tudo programado pelas agências locais em comum acordo com as agências de viagem espalhadas pelo mundo. Estima-se que Aguas Calientes é a porta de entrada para mil turistas/dia, oriundos dos mais distintos países, com os mais variados tipos de expectativa, e que podem ser satisfeitas em função da quantidade de dólares que dispõem. Mesmo os que tentam de alguma forma um turismo menos convencional, mais aventureiro, acabam por esbarrar em uma máquina muito bem montada para extorquir uma quantidade de valor considerável.

Como Chegar
Santiago

Para quem sai do Brasil, em direção a Machu Picchu, o primeiro pouso pode ser Santiago do Chile, tendo como pano de fundo as cordilheiras cobertas de neve que margeiam a cidade. Santiago ainda respira um certo vigor europeu em suas bem cuidadas e resplandecentes avenidas do centro da cidade. La Plaza de las Armas, onde fica o palácio do governo, insinua uma história de luta, de conflitos sociais, de descontentamento e um certo inconformismo diante das questões sociais que se avolumam, como por exemplo a queda do nível social e econômico da população.

Apesar do dia ensolarado, em Santiago a neve é eterna

Alguns dias em Santiago são suficientes para um ensaio do que virá depois em Cuzco, já que a altitude é bastante elevada na cidade. A vida noturna também proporciona muitos prazeres para quem gosta de bons restaurantes e de dançar. A moda musical atual na América do Sul é a salsa e a típica música andina, formada por grupos que misturam canções folclóricas com as tendências atuais. Esses grupos concentram-se mais no Peru, principalmente em lugares visitados pelos turistas, ávidos por uma cultura rica e distinta como a dos Andes.

Lima

O segundo ponto de parada para os visitantes brasileiros pode ser Lima, apesar do inconveniente de sair de uma altitude elevada como a de Santiago e voltar para o nível do mar. Em Lima, a comparação com Santiago provoca uma retração imediata. O caos urbano é evidente logo nos primeiros minutos, a invasão de vans, carros e ônibus, numa corrida desenfreada e desordenada, provoca nos que chegam um impacto assustador. Depois da calmaria de Santiago, Lima se apresenta com um furor demasiado, uma luta pela sobrevivência tão descomunal, que ali se tem a sensação exata do que o estresse de uma grande cidade mal planejada pode desencadear nos seus habitantes. No entanto, dois bairros em Lima devem ser visitados. Um deles é Miraflores e o outro é Barrancos. Ambos de classe média alta, esses bairros guardam a aconchegante beleza das praias, aliada aos jardins bem cuidados e abundantemente floridos.

O bairro de Barrancos, em Lima

A vida noturna em Lima concentra-se em Miraflores e a comida peruana está presente em vários restaurantes, sejam eles sofisticados ou populares. O cheviche é uma comida típica, feita principalmente de frutos do mar e cozida apenas no limão, sem ir ao fogo. Cru, o cheviche vem servido fartamente com pedaços de aipim cozido, que é usado abundantemente na comida peruana.
O milho - e há uma variedade deles - também é a base da alimentação local, desde os tempos pré-incaicos. O chincharron é outra comida típica, à base de carne de vaca, e muito consumida inclusive como refeição matinal. O mate de coca é um dos hábitos do povo, que funciona como um energético para quem precisa muitas vezes equilibrar os efeitos da altitude. O pisco é semelhante à cachaça brasileira, feita da cana-de-açúcar, e costuma ser usada abun-dantemente nos bares noturnos, transformada em pisco sauer.
Um outro atrativo em Lima são os Mercados de Artesanato Inca que ficam na Avenida La Marina, e que vendem um tipo de arte peruana, de excelente qualidade, a preços bem menores do que os do circuito turístico. Um destaque maior se deve dar aos produtos tecidos com a lã de alpaca, usados na confecção de ponchos, camisas, camisetas, chales, bolsas, etc.
Cuzco

Cuzco agora é o próximo objetivo para quem quer chegar em Machu Picchu. É de Cuzco que partem os trens que levam para o Vale Sagrado. Por sua altitude, a primeira providência que se deve tomar quando se chega à cidade é ingerir um mate de coca e comprar folhas de coca para mascar. Essas folhas são naturais, não provocam nenhuma alteração mental e ajudam a restabelecer o equilíbrio do corpo para quem não está acostumado a altitudes elevadas. Há também balas e toffes feitos da coca e que não são tão amargos quanto as folhas puras.
Plaza de Las Armas - Cuzco à noite

Cuzco é conhecida por sua vida noturna. São abundantes as casas noturnas que oferecem uma variedade enorme de atrativos para quem gosta de dançar, de ouvir boa música, assim como usufruir bons shows e da excelente comida cusquenha. A cidade, basicamente voltada para o turismo, oferece um passe no valor de dez dólares para que o turista conheça seus principais monumentos históricos e ainda possa visitar ruínas como a de Pizac e Chincheiro.
É imensa a quantidade de turistas que chegam no aeroporto de Cuzco, assim como é imensa a quantidade de agências de turismo, na ante-sala do aeroporto, que disputam a atenção dos que chegam com ofertas de pacotes variados, assim como translados e hotéis de diferentes preços. Ficar em Cuzco pode ser extremamente agradável, desde que os sintomas da altitude não prejudiquem a estadia. Uma alternativa interessante é sair de Lima para Cusco e imediatamente pegar o trem para Machu Picchu, deixando que o corpo se aclimate a uma altitude intermediária de 2.500 metros como a de Machu Picchu e depois então retornar para os 3.800 metros de Cuzco.
Cuzco em quéchua - idioma inca - significa centro, umbigo. E, realmente, de Cuzco partem praticamente todas as trilhas incas que levam ao Vale Sagrado. As travessias a pé pelo caminho inca são de dois tipos e incluem guia bilíngüe, além de pernoite e alimentação. O primeiro que é oferecido, tem a duração de dois dias e sai de Urubamba em direção a Machu Picchu. O segundo tem a duração de quatro dias e sai de Cuzco também com destino a Machu Picchu. Para os mais preguiçosos, ou ainda para aqueles cujo tempo é escasso, a melhor alternativa é ir de avião até Cuzco, de lá pegar um trem que leva até Aguas Calientes, e finalmente pegar um ônibus em Aguas Calientes para subir até as ruínas de Machu Picchu.
Mapa do Vale Sagrado dos Turista

Mapa do Vale Sagrado

Para quem chega a Cuzco de avião, o que mais impressiona são as neves geladas dos Andes. Durante uma boa parte do percurso final até a cidade, o avião sobrevoa uma extensa região encoberta pela neve, descortinando aos nossos olhos algumas áreas pouco conhecidas até mesmo para a população local.

Os Andes gelado - vista do avião

Cuzco, a capital dos Incas, é uma cidade em que se pode perceber a dominação espanhola e a destruição que os cristãos promoviam nas civilizações e nas culturas que caíam sob sua dominação. Cuzco era o centro do melhor que a cultura incaica pode produzir. Como capital do Tahuantisuyo - que em quéchua significa “Os Quatro Cantos do Mundo”, ou seja, o Império Inca que se estendia por todo o Peru, Bolívia, Equador, sul da Colômbia, metade superior do Chile e noroeste da Argentina, Cuzco era o centro religioso, político, cultural, militar e econômico mais poderoso do império incaico.
Praticamente destruída, sobraram apenas os alicerces das construções que os espanhóis demoliram para construírem em cima suas paredes em estilo colonial. Impossível de ser demolido, pelo tamanho das pedras e pelo encaixe feito com perfeição milimétrica, o submundo de Cuzco são as entranhas do império inca, presente também nos corredores estreitos de suas ruelas que terminam algumas em extensas escadarias. A Calle Loreto, que desemboca na Plaza de Las Armas é uma sobrevivente incaica, preservada para pedestres e que exibe ainda um calçamento feito com enormes lajes de pedra.
O Templo Del Sol é um bom exemplo do que aconteceu ao império inca. Ao se percorrer seus corredores, um mal-estar crescente se apropria de nós. As magníficas pedras e seus encaixes, seus códigos e significados, que extrapolam a simples compreensão que temos hoje, mostram que uma civilização de dezesseis mil anos está ali definitivamente encoberta pelas telas de pintores espanhóis, cujo tema principal era o clero. Nas telas, os olhares frígidos dos padres e das freiras interrompem o silêncio úmido das paredes que se calam, como se tivessem o poder de encobrir o verdadeiro conteúdo do templo - a adoração ao sol - e fingissem uma castidade exagerada, imprópria, fora de contexto.
As construções espanholas de Cuzco em geral têm dois pisos e varanda de madeira entalhadas à mão. As maiores possuem amplos pátios com jardim interno onde bate o sol pela manhã. Alguns hotéis, inclusive, têm essa arquitetura. Outro atrativo interessante é o museu incaico. Nele pode-se, com mais facilidade, perceber detalhes da civilização inca, sua arte, seus costumes, seus rituais, assim como a precisão de sua astronomia, a organização político-social das cidades e o conteúdo rico e abundante de suas crenças. Por suas características históricas e geográficas, Cuzco é considerada a Capital Arqueológica da América do Sul e Patrimônio Cultural da Humanidade.
A cidade abre caminho para a visitação de outros sítios arqueológicos que fazem parte do Vale Sagrado dos Incas e de onde partem grupos em extensas caravanas místicas em busca de uma sabedoria perdida. Mesmo que a miscigenação tenha ocorrido de forma incipiente, já que quase a totalidade da população tem traços profundamente indígenas, a memória cultural do povo é recente, cujo suporte social é a religião católica, seus santos, suas crenças e que leva o peruano a uma atitude submissa diante de sua história milenar, mas esquecida.
De Cuzco pode-se optar por algumas alternativas. A primeira é conhecer as ruínas mais próximas da cidade, como Saqsayhuman, Chincheiro, chegando até a Pizac, famosa por suas ruínas e pelo artesanato local. A segunda alternativa é ir a Puno, que fica a oito horas de Cuzco no sentido contrário às ruínas, e que leva ao Lago Titicaca. E a terceira opção é seguir direto para Machu Picchu, objetivo principal da viagem.

Continua – De Águas Calientes a Machu Picchu